DORALICE ROSA DE SOUZA SILVA – Nasceu em São José/SC, em 17/10/1930. É membro do Grupo de Poetas Livres, tendo participado de duas Antologias e de um livro de mensagens. Também publicou Casa de Barro em 2005. Formada em Monitoria da Terceira Idade pelo NET/UFSC. Faz teatro amador no Teatro Adolpho Melo em São José. Ocupa a cadeira de número 8, cuja patrona é a poetisa Antonieta de Barros.




Publicações




Uma nova vida

Nasci com a década de trinta, numa época em que tudo era mais longe, mais complicado. Sempre gostei de estudar. Eu era uma das primeiras alunas da classe. Mas para ir à escola era muito difícil. Morava na zona rural, a escola era muito longe e meus pais tinham poucos recursos para manter os sete filhos estudando.
Com muita dificuldade, terminei o terceiro ano primário. A escola era isolada e só ia até o terceiro ano. Eu sonhava ser professora. Por isso queria muito continuar os estudos.
Minha irmã casada, que morava em Palhoça, fez minha matrícula no Grupo Escolar Venceslau Bueno. Fui morar com essa irmã, Otília, para poder estudar.
Mas o destino mudou outra vez minha vida. Eu fiquei gravemente doente, e a recupe­ração foi muito lenta. Não voltei mais para a escola.
Depois de curada, ainda criança, comecei a trabalhar nos engenhos de açúcar e farinha, na lavoura e na colheita de café, junto com meus pais e irmãos. Eu não me conformava em não mais poder estudar, mas as chances eram cada vez menores.
Aos vinte e três anos casei. Começaram a vir os filhos – seis ao todo. Com as crianças pequenas e o esposo ganhando um pequeno salário, resolvi ser costureira para aumentar a renda familiar e manter os filhos na escola. Jurava para mim mesma que garantiria para os filhos as chances que eu não tive.
Após vinte e nove anos de labuta, me aposentei. Vidomar, meu esposo, também estava aposentado. Quatro dos filhos já estavam casados. Dois eram formados em faculdade. A vida corria tranqüila. Eu cuidava dos afazeres da casa e fazia artesanato para preencher as horas vagas.
Aos 67 anos, a grande perda: faleceu o meu esposo. Eu pensei que a vida tinha terminado.
Mas nosso bom Deus sempre põe as pessoas boas em nosso caminho, e foi o que aconteceu comigo. Encontrei uma amiga que comentou sobre o Núcleo de Estudos da Terceira Idade e me aconselhou a fazer matrícula para os cursos. “São maravilhosos”, disse ela, “e as inscrições estão abertas.”
No dia seguinte, fiz a matrícula no Curso de Avós. Fiquei feliz em poder voltar para a sala de aula e com o atendimento das pessoas maravilhosas que encontrei no NETI. A partir daquele dia, passei a viver novamente.
Terminei o Curso de Avós, fiz Crescimento Pessoal e hoje estou na segunda fase do Curso de Monitores. O NETI me devolveu o direito de estudar, que me foi negado quando eu ainda era uma criança. Tenho planos de fazer outros cursos, pois gosto demais da sala de aula.
Estou lendo e escrevendo bem melhor e participo de muitos eventos. Sou aluna de teatro no Adolfo Mello, em São José, participo de um grupo de terceira idade no Kobrasol, onde pratico dança, ginástica, capoeira e muitas outras atividades. Também sou membro do Grupo de Poetas Livres. Tenho setenta e cinco poemas e oito contos prontos para o lançamento de um livro.
Ponho fé em Deus que vou realizar esse sonho.
Devo ao NETI a nova visão de mundo que tenho, meus novos horizontes.
Parabéns, NETI. Nos teus vinte anos de história, mudaste a história de tanta gente… inclusive a minha. Muito obrigada!

Doralice Rosa de Souza Silva


 

 
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