WESLEY O. COLLYER – Ex-Comandante da Marinha Mercante, onde navegou o equivalente a 16 voltas em torno da Terra; formado em Direito pelas Faculdades Bennett do Rio de Janeiro. Magistrado Federal do Trabalho (aposentado), pós-graduado em Política e Estratégia, pela Escola Superior de Guerra e mestre em Direito Internacional, Meio ambiente e Atividade Portuária pela Univali. Advogado em Santa Catarina e Consultor de Direito Marítimo e Portuário. Publicou “Poemas em Três Estações” (poesias), 2004 e “Mar de Memórias” (minicrônicas) pela Nova Letra/Blumenau, 2006, além de diversos artigos no Diário Catarinense. Participou dos Anais do IX Concurso Internacional de Poesias Enrique Salazar Cavero e recebeu Medalha de Prata no Concurso Nacional da Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias, do Rio de Janeiro. Tem poema publicado no livro O Jardim de Judith (Tijucas, 2004). Teve selecionado no Concurso Internacional da Academia Il Convívio (Itália) o poema “Teu Corpo Meu”, publicado, em italiano e português na “Antologia del premio Poesia, Prosa e Arti Figurative 2005” da mesma Academia. No campo do Direito, publicou “Dicionário de Comércio Marítimo” (bilíngüe), em 3ª edição pela editora Lutécia/Record, em co-autoria com Marco A. Collyer, 2002; "Lei dos Portos: o Conselho de Autoridade Portuária e a Busca da Eficiência", pela Lex Editora/SP, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, 2008 e dezenas de artigos em revistas especializadas, inclusive na Revista Forense Eletrônica e Revista Jurídica da Presidência da República. Ocupa a cadeira de número 2, cujo patrono é o literato Othon d’Eça.


Publicações

 




Um Casal Diferente*

  Durante a pior fase do ‘apartheid’ da África do Sul, fiz diversas escalas no porto de Cape Town (Cidade do Cabo), na linha Brasil-Golfo Pérsico. A bordo, todos os morenos se preocupavam: os táxis traziam escrito “Only
White”, nos ônibus (de dois andares) os brancos sentavam embaixo e os negros na parte de cima.
  O Comissário de bordo era um negro franzino e educadíssimo, casado com uma bela moça loira, que naquela viagem o acompanhava. Após a vistoria do navio pelas autoridades, ele comentou com o Agente que desejava ir a terra com sua mulher. O Agente assustou-se, e certamente imaginou o que aquilo poderia ocasionar (um casal tão incomum, para os padrões ‘aparteístas’, a passear pelas ruas e pelos shoppings).
Pensou e pensou (se impedisse, poderia até causar um problema diplomático). Por fim, perguntou: “Você tem uniforme de gala a bordo?”
  O Comissário baixou terra com seu melhor uniforme, mais orgulhoso do que nunca, a mostrar para a cidade incrédula e impotente a sua bela mulher loira.
Naquele dia, graças a dois brasileiros, a Cidade do Cabo deu um pequeno passo em direção ao fim do regime de segregação...


O Melhor Pão que Comi*

  O barco era o “Benjamin”, tido como o melhor navio-gaiola que trafegava pelos rios da Amazônia. Todo ano, meu pai alugava os camarotes 4 e 6 e a família descia de Rio Branco para Belém; a viagem durava 14 dias, e o retorno, 21 (subindo o rio).
As lembranças são as melhores de minha infância: o sino que anunciava as refeições (que ansiedade!); as visitas à 3ª classe, onde os passageiros (geralmente nordestinos) se acomodavam em redes; o embarque do gado nos portos (na verdade, barrancos), pendurado pela cabeça, para ser consumido a bordo; a austeridade do comandante (seu apelido era Caburé, porque dormia durante o dia e estava alerta à noite); o navio encalhado (e a ordem dele: “Baixem um bote, passem a corda em torno daquela árvore, tragam a extremidade para bordo e puxem com o aparelho de força”) e o navio livre do banco (!); os locais inacessíveis para nós, como a ponte de comando, onde estava escrito na entrada: “Privativo dos Oficiais”. Tudo era uma aventura maravilhosa.
  Mas a lembrança mais prazerosa é: o pão para consumo no café da manhã do dia seguinte saía do forno às nove da noite. Minha irmã Helenice era pré-adolescente e filha do passageiro mais ilustre (o tenente ‘Coliê’). Para agradá-la, o cozinheiro, um dia, lhe ofereceu uma bisnaga quentinha com muita manteiga. Ela chegou radiante ao camarote e degustamos a iguaria, de olho no pedaço do outro, como habitantes das cavernas. Enquanto durou a viagem, aquilo se repetiu: o cheiro do pão saído do forno; a manteiga derretendo sobre ele; a divisão em pedaços, feita por minha irmã, que nunca agradava a todos, mas obedecíamos porque, além de mais velha, era a ‘dona’ do petisco; e a satisfação de comer o pão que quase nos queimava a língua, mas que prazer que dava!
  Até hoje, sinto a alegria daquela criança que fui, a se deliciar, num momento mágico, com um pão quentinho e cheio de manteiga, num rio perdido da Amazônia imensa...


* Textos do livro Mar de Memórias (Minicrônicas), publicado pela Editora Nova Letra, Blumenau, 2006.

 
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